terça-feira, 9 de junho de 2026

112 - A geografia da foto

Este tempo intermediário entre verão e inverno (ou vice-versa), isto é, outono ou primavera (ou vice-versa) é a época mais fotogênica do ano no Rio de Janeiro e região (aliás, em toda a faixa do Trópico de Capricórnio, no hemisfério sul, ou de Câncer, no hemisfério norte).
A luz tem uma suavidade ideal, os contrastes de luz e sombra são leves e, afinal, se o usuário do celular (não é preciso um equipamento pesado) não se atrapalhar no ato, a fotografia (até mesmo uma selfie) fica sempre boa (pelo menos, é o que lhe desejo!)
O que não quer dizer que não surjam surpresas, como, por exemplo, o contraluz que registrei nestas duas fotos. A presença deste sol direto e impactante e desta sombra espaçosa e impositiva dependem do “entendimento” entre algumas variáveis: o período do ano, o ângulo do ponto de vista da foto, o momento do dia e, é lógico, uma iniciativa decisiva do artista: a de parar e apertar o botão disparador da câmera (do celular, no caso).
Para entender o efeito, vejamos uma condição “ideal”... No solstício de verão no hemisfério sul (o último, no dia 21/12/2015), o sol fica centralizado no céu ao meio-dia, mas, a 23º na direção norte (e não a pino). Daí, o efeito de sombra alongada e frontal depende “apenas” da rua estar no eixo norte-sul e de você estar virado para o norte.
Já a geografia desta fotografia é muito mais complexa, nem vou tentar explicar, nem sei se saberia... O fato é que estamos mais perto do solstício de inverno (21/06) e fiz as fotos lá pelo meio da tarde (15:08, diz o arquivo). Além disso, a rua (a Ator Paulo Gustavo, que chamo de Rua do Ator) não está exatamente no eixo norte-sul, mas na linha sudeste-noroeste, em um ângulo incalculável (para mim...). Já o ângulo de visão da foto vem da virada apressada da esquina, da Otávio Carneiro para a Rua do Ator, em Icaraí, Niterói.
E, afinal, a iniciativa de fazer as fotos veio da percepção de que toda aquela luz (um tremendo farol alto!) me daria um contraluz radical. Sim, é claro, desde que eu voltasse alguns passos, preparasse a câmera e, tendo hora marcada no médico, fosse ao encontro, fazendo fotos, dos modelos casuais (aos quais agradeço aqui a colaboração).

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

111 - Uma carência vegetal

 


Este ser, que acho meio espaventado, costuma me olhar, desde que faça sol, logo pela manhã. 
E me deixa enevoado o dia todo.
Do modo que me olha, deduzo pertencer à classe dos espantalhos... Não dos comuns, dos mais sombrios.
Sinto nele, enquanto figura que encara, um desarvoramento contido, um invejante estado estático, um implícito lamentoso olhar, se bem o enxergo...
Se atravesso as barreiras que nos separam – a indiferença do vidro, o corte horizontal das barras – sei que vou encontrá-lo verde e vivo, dado que, um dia, plantado.
Mas, não de todo vivaz. Abatido, ressecado, deprimido, quase abandonado: um ser opaco e parado, um “pet” vegetal de um tutor desalmado, uma planta carente de águas...
Triste, que sofro um pouco por isso, eu então lhe digo, definitivo: “Não adianta me olhar, tão grave assim, pelas grades. E nem esperar que lhe quebre (ou lhe recupere) os galhos... Não sou, aceite, que me faltam raízes rurais, um humano com vocação para o agro...”
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# # 111 do blog FotoLíteroGrafia, na série "Artes Casuais", https://fotoliterografia.blogspot.com/



 


segunda-feira, 20 de abril de 2026

110 - No controle?

 

A gente vai organizando as coisas, cria lugar para cada uma (para as principais, ao menos), se esforça para administrar os movimentos e os resultados. Tudo isso, para se tranquilizar diante do mundo. Digo, da parte do mundo que se consegue alcançar, influenciar, interferir, o "seu" mundo...
Melhor símbolo deste interesse (e esforço) que um controle remoto não há. Pode muito: liga, desliga, muda de canal, recua os eventos no tempo, abandona o programa já superado. Tanta capacidade, ainda que virtual, de alterar o que se forma e o que se informa, faz dele um cetro, uma varinha mágica, uma fonte de poder.
A maior parte do tempo o aparelho fica ali parado, à sua frente, sobre uma mesa, aparentemente inútil, ainda que sempre cheio dessas potenciais vontades, concentradas sob a inércia de seus botões.
Eis que num repentino momento veio esta luz, chegando de um tempo distante: um raio de sol, sorrindo com todas as cores, iluminando o pretenso controle remoto.
Em vez de controle, o deslumbre: a vida é mesmo uma sucessão de luzes.
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# 110, na série "Luzes Legais"

segunda-feira, 30 de março de 2026

109 - Folha impressa

 

As calçadas são cheias de novidades, ou quase. Bem, desde que se olhe um pouco para baixo, mas com cuidado, nada de bater cabeça com poste... 
Desta vez, uma folha impressa. Não uma folha jornalística, nem estava em São Paulo. Uma folha impressa a sol e chuva, pela pressão inevitável do tempo.
Uma folha natural, e casual, que, pelo jeito, veio de uma amendoeira ali pertinho. Tão natural que fez questão de cair ao lado de uma placa (digo, uma tampa) que registra a passagem, ali por baixo, de um gás, que é natural, também. 
Naturalmente, fiquei em pé à frente dessa arte, para fazer a foto, e meus pés entraram na imagem. Podia lhes cortar tal insolência na edição da imagem, mas, sendo o tema aqui a arte casual, eles fincaram pé e ficaram... 
É o que digo:
- Para mim, arte casual é assim. 
- Ei, é assim ou é assada?, diria um duvidoso crítico.
- Ora, se fosse assada não seria casual!

quarta-feira, 11 de março de 2026

108 - No mundo das nuvens

 


Sempre que atravesso de barca de Niterói para o Rio ou vice-versa presto atenção no movimento do aeroporto Santos Dumont. Repito sempre o exercício de tentar fotografar algum avião que parte ou que chegue às suas pistas. É uma espécie de plantão, mas, evidentemente, depende muito mais de sorte do que de habilidade.
Desta vez, tudo muito simples. Um avião que partia da cabeceira e foi sumindo na distância, sempre na direção do Pão de Açúcar. Sem uma teleobjetiva, apenas com o celular, fiz umas três fotos gerais (que o digital é bem barato), com o avião cada vez menor, até que percebi que ia acontecer a coincidência da passagem dele à frente da nuvem, bem em cima do pico da montanha e em linha com o meu eixo de visão!
Ora, nada melhor para um fotojornalista, ainda que aposentado, do que uma coincidência!
Não deu tempo de alterar nada, a gente faz o que pode, mas providenciei uma ampliação da cena, aqui no celular mesmo.
O importante de fazer (ou ver) fotografia é curtir.
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Travessia da baía da Guanabara, 25/02/2026.
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# 108 do blog FotoLíteroGrafia, na série "Encontros Sensíveis"