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segunda-feira, 25 de maio de 2026

111 - Uma carência vegetal

 


Este ser, que acho meio espaventado, costuma me olhar, desde que faça sol, logo pela manhã. 
E me deixa enevoado o dia todo.
Do modo que me olha, deduzo pertencer à classe dos espantalhos... Não dos comuns, dos mais sombrios.
Sinto nele, enquanto figura que encara, um desarvoramento contido, um invejante estado estático, um implícito lamentoso olhar, se bem o enxergo...
Se atravesso as barreiras que nos separam – a indiferença do vidro, o corte horizontal das barras – sei que vou encontrá-lo verde e vivo, dado que, um dia, plantado.
Mas, não de todo vivaz. Abatido, ressecado, deprimido, quase abandonado: um ser opaco e parado, um “pet” vegetal de um tutor desalmado, uma planta carente de águas...
Triste, que sofro um pouco por isso, eu então lhe digo, definitivo: “Não adianta me olhar, tão grave assim, pelas grades. E nem esperar que lhe quebre (ou lhe recupere) os galhos... Não sou, aceite, que me faltam raízes rurais, um humano com vocação para o agro...”
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# # 111 do blog FotoLíteroGrafia, na série "Artes Casuais", https://fotoliterografia.blogspot.com/



 


segunda-feira, 30 de março de 2026

109 - Folha impressa

 

As calçadas são cheias de novidades, ou quase. Bem, desde que se olhe um pouco para baixo, mas com cuidado, nada de bater cabeça com poste... 
Desta vez, uma folha impressa. Não uma folha jornalística, nem estava em São Paulo. Uma folha impressa a sol e chuva, pela pressão inevitável do tempo.
Uma folha natural, e casual, que, pelo jeito, veio de uma amendoeira ali pertinho. Tão natural que fez questão de cair ao lado de uma placa (digo, uma tampa) que registra a passagem, ali por baixo, de um gás, que é natural, também. 
Naturalmente, fiquei em pé à frente dessa arte, para fazer a foto, e meus pés entraram na imagem. Podia lhes cortar tal insolência na edição da imagem, mas, sendo o tema aqui a arte casual, eles fincaram pé e ficaram... 
É o que digo:
- Para mim, arte casual é assim. 
- Ei, é assim ou é assada?, diria um duvidoso crítico.
- Ora, se fosse assada não seria casual!

domingo, 22 de fevereiro de 2026

105 - Reaparecer em pedaços


Quando passei não estava mais ali, mas deixou, na(s) barra(s) pesadas(s), sua presença.
As roupas postas a secar indicam a suposta intenção de voltar e reassumir sua história.
A gente passa, mas a arte da dança das peças sobre a indiferença das travas lembra alguém que esteve, não está, marcou seu lugar e voltará.

sábado, 17 de janeiro de 2026

101. Um palhaço no clima da chapa

 

Um palhaço no clima da chapa - Foto: Guina A. Ramos - Rio, 14/01/2026

Navegar de Niterói ao Rio de Janeiro pela Baía da Guanabara é sempre um prazer. Acessar as ruas no Centro do Rio a partir da Praça XV, para a maioria que não vai no rumo do VLT, é que é dureza...
É necessário atravessar um "deserto" (de ideias?), uma "placa" de pedras sem qualquer proteção contra o Sol, a chuva, o vento e a saúde do transeunte...
No verão, quem atravessa esta grande área totalmente descoberta, vazia de coberturas, à frente da Estação das Barcas se sente, por muitos metros, em uma grande "frigideira" sem óleo (mas, também sem protetor solar). Chego a pensar que os niteroienses que fazem diariamente este trajeto bem que poderiam processar o prefeito do Rio por crime ambiental...
Ao entrar, mais uma vez, nesse calvário, notei a jovem de cabelos em chamas e pele radicalmente branca, que avançava estoicamente pela "chapa quente" à busca de alívio entre os edifícios.
Mas, só depois que revi a foto, notei que pouco adiante da graciosa "modelito" estava a única tentativa de árvore de todo aquele trecho, a qual, por ironia, compôs com seus cabelos a imagem do sentimento que me acossa naquela travessia...
E vi que a sombra, dada a insensibilidade da administração pública local, não acolhe quem passa. Ao contrário, fica para trás...
 

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

96. Rolos sem fim

 

Rolos sem fim - Foto: Guina Araújo Ramos, 21/09/2025

O atento fotógrafo Lew Moraes publicou foto meio assustadora de um emaranhado de fios num poste da favela da Rocinha, e se disse espantado por estas "confusas ligações" funcionarem, observando ainda que não querem mudar...
Também tenho observado essas coisas, mas não sei se este tipo de emaranhado deva ser creditado ao local, uma favela. Esta semana mesmo fotografei esta espécie de “palmeira artificial”, em Icaraí, bairro nobre de Niterói. E, pouco antes, na área do Centro, a foto de uma aglomeração de cabos e fios, um verdadeiro caminho de rato (digo, de mico) entre dois postes.  

Rolos sem fim - Foto: Guina Araújo Ramos, 21/09/2025

Há muitos desses intrincamentos por aí, verdadeiras (?) “peças artísticas”, rolos (em vez de novelos) que não se sabe de onde vêm e para onde vai, criados por empresas de energia, de mídia etc. As mesmas que reclamam tanto (reconheçamos, com razão) dos roubos de fios e cabos.
Não entendo bem esta lógica da absurda sobreposição (e enrolação) de fios e cabos... Imagino que formem uma "reserva técnica", um "estoque acessível", disponível ali para, nas redondezas, fazer substituição (ou emendas) em caso de roubos etc..
Mistérios empresariais... Talvez exagerem um pouco no volume da reserva... Ou "esqueçam" de tirar os fios & cabos já inúteis...

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

95. O real da luz na base do virtual

 

Luz no virtual - Foto: Guina Araújo Ramos, 02/09/2025


Lá pela tarde, se as nuvens permitem, o Sol costuma aparecer no meu espaço de trabalho e sempre traz alguma novidade visual, até porque sua trajetória (no céu e pelas janelas) muda a cada dia, e a cada instante do dia.
Às vezes, por exemplo, bate de frente. E a luz passa um tempo em cima do meu rosto e tenho que me desviar do raio do sol (digo, do raio de sol) para enxergar o monitor.
Então, de repente, num dia desses, uma faixa de luz do sol teve a "perspicácia" (porque até parece proposital) de atravessar os furinhos de refrigeração da torre do computador e foi atingir exatamente a lateral do "mouse" (o rato...), que estava ali parado há um tempo enquanto eu tratava de outros assuntos.
Não significa nada nem tem qualquer valor simbólico ou esotérico, muito menos prático, mas não deixa de ser delicioso ter a surpresa de um repentino achado luminoso bem à sua frente, na sua mesa de trabalho. Aliás, sendo "achado luminoso", sobre qualquer tema, a toda hora, em qualquer lugar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

92. De sola no decalque

 

Esperando a hora de a gente sair e fazer umas compras, me encostei na cama e, já com o tênis de caminhadas, apoiei a sola do pé sobre a perna (a outra, é lógico) logo abaixo do joelho.
Fiquei mexendo no celular e eis que, na hora de sair, percebi ter feito um decalque na pele!
Merecia emoldurar e por na parede, mas, percebendo ser impossível fixar a "obra de arte" por muito tempo, me satisfiz com um registro fotográfico.
O que, afinal, me apetece, assim como fico contente ao descobrir, de repente, essas artes casuais...

domingo, 29 de junho de 2025

86. Moicano prateado

Autorretrato estilo moicano - Foto: Guina Araújo Ramos, 28/06/2025

Cabelo de criança hoje é elaborado, mas antigamente era rebelde. Por exemplo, o meu: começava em um redemoinho à direita no alto da cabeça e caía em ponta sobre o olho direito. Acho até que por isso enxergo melhor do esquerdo...
O tempo passa, o corpo vai mudando, os fios vão caindo, a gente até se alegra de ter cabelos brancos, é melhor do que não tê-los... Passa também a vaidade, ao menos no meu caso, de caprichar no penteado: a infância não passou ainda de todo para mim.
Todo corpo (ou todo ser) faz a sua própria arte, e eis que um dia, numa parada na rua, um rapazola comentou: "aí, coroa, gostei do moicano!"... Foi quando percebi a forma que, à minha revelia, meu cabelo assumia. Custei foi a entender a causa do fenômeno...
Agora, acho que tenho uma teoria. Acordo de manhã e vejo meu moicano no espelho. Ora, só pode ser porque, alternando no sono a cabeça de um lado para o outro, a pressão no travesseiro vai esculpindo cada lado do cabelo: de manhã está pronto o penteado!
Indica também a necessidade de outro movimento artístico: cortar o cabelo!... O que, graças à minha "personal cabeleireira", já foi devidamente providenciado. A foto é de um pouco antes.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

[77] O papel no pedaço


O papel no pedaço - Foto Guina Araújo Ramos, Niterói, 2025

A pergunta ali na lateral da papelaria é, evidente, um chamariz, um gancho de marketing...
Até porque não querem vender pedaços, mas uma variedade de bonitinhas peças de papel (ou não, desde que bonitinhas).
Pensei logo em fazer o meu aviãozinho preferido, uma das duas únicas peças de papel dobrado que sei fazer (a outra é outro aviãozinho, só que mais simples).
Mas, cadê papel?... Teve vez que quase entrei na papelaria para comprar uma folha só pra isso...
Nesse dia, tinha no bolso da camisa um mini prospecto, recém recebido na rua. De imediato, falei: é hoje!...
Enquanto ia e voltava aonde ia, fui dobrando o papel, passando a unha para firmar as dobras, rasgando mais ou menos, e quando cheguei de volta, jogo rápido, estava pronto!
Era um papelote mínimo, de gramatura excessiva para o tamanho, mas me serviu: fiz um aviãozinho "amostra grátis". Tão pequeno que nem voou direito: uns três metros, e caiu de bico.
Mas, saí satisfeito: respondi a pergunta a mim mesmo, na moral, na real.
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# 77 da série Artes Casuais, em FotoLíteroGrafia

[76] Nó de rabiola

 

Nó de rabiola em sacos plásticos  - Foto Guina Araújo Ramos, 2025

Nunca fui um bom “soltador de pipa” ou seja lá que nome tenha ou tivesse. Até que debicava um pouquinho e até conseguia cortar uns e outros com uma pipa sem vergonha, mas realmente eu era meio sem jeito pra coisa.
Os coleguinhas lá em Brás de Pina, percebendo minha incompetência, me convenceram de que eu era muito bom em fazer cortante, o também chamado cerol, especialmente naquela tarefa em que você fica esfregando um paralelepípedo, na calçada, em cima de pedaços de vidro até moer completamente e transformar tudo em pó (de vidro, cortante). Daí pra diante, a tarefa de misturar com cola (de madeira) e tal, nisso eu também não era muito bom, e na escola mesmo nunca fui bom em química... Mas ainda ajudava a passar o cortante na linha, esticada em várias voltas entre dois postes ou árvores da rua.

Nó de rabiola em uso - Guina Araújo Ramos, 2026
Das coisas mais úteis que aprendi nessa escola infantil da vida foi fazer nó de rabiola. Sim, porque rabiola eu curtia fazer, era uma espécie de artesanato ou arte. Você dobra o papel a jeito, várias dobras, faz um corte a tesoura e consegue longas tiras de papel fino, o mesmo da pipa. Prende a linha, vai dando nós de rabiola e em cada laçada coloca uma tira do papel. Colocada a tira de papel na laçada, estica a linha: o papel não sai mais. Pronto, estava feita a rabiola, um rabicho que dá equilíbrio à pipa.
Nunca imaginei que depois de velho descobriria uma grande utilidade para o nó de rabiola: fechar sacos plásticos. 

Funciona bem, tanto para carregar quanto para guardar no armário de casa.
O nó de rabiola facilita o fechamento do saco plástico, mas ainda mais a reabertura. É uma facilidade para abrir: puxando a ponta solta, o nó se desmancha por completo!
Muito melhor do que dar nó seco, comum, que este, mesmo que você o deixe frouxo, é muito enjoado na hora de abrir.
Quando tenho alguma intimidade com os/as vendedores/as, se já sou freguês, sempre peço para fechar os sacos de compras no varejo e dou (mostrando como) o nó de rabiola.
Já ensinei muito vendedor (serviço voluntário, de graça...) a fazer o espertíssimo nó de rabiola!

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# 76 da série Artes Casuais, em FotoLíteroGrafia

sexta-feira, 7 de março de 2025

[74] Buracos em série

 

Buracos em série - Foto Guina Araújo Ramos, 2025


Peguei o costume de apoiar o celular na quina da pequena torre, o modem emissor de wi-fi, da empresa que nos fornece internet e TV a cabo.
(Claro que o serviço não é bom... Claro que toda hora sai do ar, fica lá um sinalzinho rodopiando na tela. Claro, se fosse empresa estatal, todos os canais de mídia estariam pedindo sua privatização. Claro, já é empresa privada... Claro que a gente, bufando ou não, atura e paga.)
Hora dessas, fiz uma foto ali por perto e, quando coloquei o celular com a câmera aberta neste local, descobri essa imagem: uma sucessão de buracos da lateral do aparelho, que mais parecem pontos pretos, em que nunca reparara, a lente do celular distorcendo de forma interessante. Mais um caso de arte casual!
Aí, foi só apertar o botão da câmera do celular. E depois dar uma garibada no contraste que nem tudo nasce pronto...
[Este texto é para quem gosta de saber (eu, por exemplo, adoro!) a história de cada foto.]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

[73] O voo da alga morta sob a força da água-viva

O voo da alga morta sob a força da água-viva - Foto: Guina Araújo Ramos - Florianópolis, 04/02/2013

O voo da alga morta sob a força da água-viva.
Vida é morte, morte é vida: na natureza, tudo...
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Pântano do Sul, Florianópolis.
04/02/2013.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

[72] A estrela no esgoto

A estrela no esgoto - Foto Guina Araújo Ramos, 2024

Na confusão do cosmos, entre cometas faceiros, planetas sisudos e asteroides debiloides, eis que um dia uma estrela resolveu se movimentar e, entre o tamanho real a bilhões de anos-luz além e o tamanho pontual que os terrestres têm, adotou meramente uma forma bem contida, porém elegante, e, impaciente, debicou no rumo terrestre, atmosfera a dentro.
Querendo ser discreta no vórtice da descida, mas meio confusa diante das tantas formas grotescas que via, escolheu muito mal como alvo para o pouso uma linha de brilho que não sabia ser de reflexos de água.
Caiu no que diziam ser um rio domado, mas não passava de um veio de esgoto. Durou pouco seu novo posto no infinito universo, acabou a pose quando veio a chuva. Com ela, a sujeira do desinteresse humano pelo planeta e a enxurrada de lixo, e assim o desleixo levou a estrela, toda torta, para o fundo do final dos tempos.
 
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Leito do Rio (?) Icaraí (continuação do Rio Cubango), entre as ruas Mariz e Barros e 5 de Julho, Icaraí, Niterói - 20/12/2024

terça-feira, 30 de abril de 2024

[63] Disco voador na mesa


Disco voador na mesa - Foto: Guina Araújo Ramos - Niterói, 2024

Pode parecer uma montagem proposital... Os elementos já estavam ali, sim, mas a composição que a foto registra é totalmente casual.
Mesa com tampo de vidro, toalha de crochê e bandeja metálica (um presente vindo do Egito), tudo redondo. Sobre esta base, luminária do tipo “pendente”, composta por peça branca metálica côncava (com duas lâmpadas comuns) e outra peça côncava maior, também branca (aqui, mal iluminada), tudo também redondo. Suspendendo o conjunto, um tubo de plástico fino, por onde passa a fiação elétrica.
Chegando em casa e acesa a luz, vejo a luminária, em vez de suspensa a um metro sobre a mesa, arriada até encostar na bandeja. No que o cabo plástico foi ficando "meloso", digo, escorregadio, o “disco voador” desceu até encostar na mesa.
Achei ótimo fazer a foto, pura arte casual!... Difícil agora é fazer a luminária voltar ao lugar... Por mais que limpe ou esfregue, para tirar a gosma do plástico, o cabo continua escorregadio. Após alguns nós e giros em torno do gancho do teto, só chegou a 40cm de altura e precisa ser alçado um tanto mais...

Série Artes Casuais, # 5