As calçadas são cheias de novidades, ou quase. Bem, desde que se olhe um pouco para baixo, mas com cuidado, nada de bater cabeça com poste...
Desta vez, uma folha impressa. Não uma folha jornalística, nem estava em São Paulo. Uma folha impressa a sol e chuva, pela pressão inevitável do tempo.
Uma folha natural, e casual, que, pelo jeito, veio de uma amendoeira ali pertinho. Tão natural que fez questão de cair ao lado de uma placa (digo, uma tampa) que registra a passagem, ali por baixo, de um gás, que é natural, também.
Naturalmente, fiquei em pé à frente dessa arte, para fazer a foto, e meus pés entraram na imagem. Podia lhes cortar tal insolência na edição da imagem, mas, sendo o tema aqui a arte casual, eles fincaram pé e ficaram...
É o que digo:
- Para mim, arte casual é assim.
- Ei, é assim ou é assada?, diria um duvidoso crítico.
- Ora, se fosse assada não seria casual!
![]() |
| Um palhaço no clima da chapa - Foto: Guina A. Ramos - Rio, 14/01/2026 |
Navegar
de Niterói ao Rio de Janeiro pela Baía da Guanabara é sempre um prazer.
Acessar as ruas no Centro do Rio a partir da Praça XV, para a maioria
que não vai no rumo do VLT, é que é dureza...
É
necessário atravessar um "deserto" (de ideias?), uma "placa" de pedras
sem qualquer proteção contra o Sol, a chuva, o vento e a saúde do
transeunte...
No verão, quem atravessa esta grande
área totalmente descoberta, vazia de coberturas, à frente da Estação das
Barcas se sente, por muitos metros, em uma grande "frigideira" sem óleo
(mas, também sem protetor solar). Chego a pensar que os niteroienses
que fazem diariamente este trajeto bem que poderiam processar o prefeito
do Rio por crime ambiental...
Ao entrar, mais uma
vez, nesse calvário, notei a jovem de cabelos em chamas e pele
radicalmente branca, que avançava estoicamente pela "chapa quente" à
busca de alívio entre os edifícios.
Mas, só depois
que revi a foto, notei que pouco adiante da graciosa "modelito" estava a
única tentativa de árvore de todo aquele trecho, a qual, por ironia,
compôs com seus cabelos a imagem do sentimento que me acossa naquela
travessia...
E vi que a sombra, dada a insensibilidade da administração pública local, não acolhe quem passa. Ao contrário, fica para trás...
![]() |
| Rolos sem fim - Foto: Guina Araújo Ramos, 21/09/2025 |
O atento fotógrafo Lew Moraes publicou foto meio assustadora de um
emaranhado de fios num poste da favela da Rocinha, e se disse espantado por
estas "confusas ligações" funcionarem, observando ainda que não
querem mudar...
Também tenho observado essas coisas, mas não sei se este tipo de emaranhado deva ser creditado ao local, uma favela. Esta semana mesmo fotografei esta espécie de “palmeira artificial”, em Icaraí, bairro nobre de Niterói. E, pouco antes, na área do Centro, a foto de uma aglomeração de cabos e fios, um verdadeiro caminho de rato (digo, de mico) entre dois postes.
![]() |
| Rolos sem fim - Foto: Guina Araújo Ramos, 21/09/2025 |
![]() |
| Luz no virtual - Foto: Guina Araújo Ramos, 02/09/2025 |
![]() |
| Autorretrato estilo moicano - Foto: Guina Araújo Ramos, 28/06/2025 |
![]() |
| O papel no pedaço - Foto Guina Araújo Ramos, Niterói, 2025 |
![]() |
| Nó de rabiola em sacos plásticos - Foto Guina Araújo Ramos, 2025 |
Nunca fui um bom “soltador de pipa” ou seja lá que nome tenha ou tivesse. Até que debicava um pouquinho e até conseguia cortar uns e outros com uma pipa sem vergonha, mas realmente eu era meio sem jeito pra coisa.
Os coleguinhas lá em Brás de Pina, percebendo minha incompetência, me convenceram de que eu era muito bom em fazer cortante, o também chamado cerol, especialmente naquela tarefa em que você fica esfregando um paralelepípedo, na calçada, em cima de pedaços de vidro até moer completamente e transformar tudo em pó (de vidro, cortante). Daí pra diante, a tarefa de misturar com cola (de madeira) e tal, nisso eu também não era muito bom, e na escola mesmo nunca fui bom em química... Mas ainda ajudava a passar o cortante na linha, esticada em várias voltas entre dois postes ou árvores da rua.
Das coisas mais úteis que aprendi nessa escola infantil da vida foi fazer nó de rabiola. Sim, porque rabiola eu curtia fazer, era uma espécie de artesanato ou arte. Você dobra o papel a jeito, várias dobras, faz um corte a tesoura e consegue longas tiras de papel fino, o mesmo da pipa. Prende a linha, vai dando nós de rabiola e em cada laçada coloca uma tira do papel. Colocada a tira de papel na laçada, estica a linha: o papel não sai mais. Pronto, estava feita a rabiola, um rabicho que dá equilíbrio à pipa. 
Nó de rabiola em uso - Guina Araújo Ramos, 2026
Nunca imaginei que depois de velho descobriria uma grande utilidade para o nó de rabiola: fechar sacos plásticos.
Funciona bem, tanto para carregar quanto para guardar no armário de casa.
O nó de rabiola facilita o fechamento do saco plástico, mas ainda mais a reabertura. É uma facilidade para abrir: puxando a ponta solta, o nó se desmancha por completo!
Muito melhor do que dar nó seco, comum, que este, mesmo que você o deixe frouxo, é muito enjoado na hora de abrir.
Quando tenho alguma intimidade com os/as vendedores/as, se já sou freguês, sempre peço para fechar os sacos de compras no varejo e dou (mostrando como) o nó de rabiola.
Já ensinei muito vendedor (serviço voluntário, de graça...) a fazer o espertíssimo nó de rabiola!
--
# 76 da série Artes Casuais, em FotoLíteroGrafia
![]() |
| Buracos em série - Foto Guina Araújo Ramos, 2025 |
Peguei
o costume de apoiar o celular na quina da pequena torre, o modem
emissor de wi-fi, da empresa que nos fornece internet e TV a cabo.
(Claro
que o serviço não é bom... Claro que toda hora sai do ar, fica lá um
sinalzinho rodopiando na tela. Claro, se fosse empresa estatal, todos os
canais de mídia estariam pedindo sua privatização. Claro, já é empresa
privada... Claro que a gente, bufando ou não, atura e paga.)
Hora
dessas, fiz uma foto ali por perto e, quando coloquei o celular com a
câmera aberta neste local, descobri essa imagem: uma sucessão de buracos
da lateral do aparelho, que mais parecem pontos pretos, em que nunca
reparara, a lente do celular distorcendo de forma interessante. Mais um
caso de arte casual!
Aí, foi só apertar o botão da câmera do celular. E depois dar uma garibada no contraste que nem tudo nasce pronto...
[Este texto é para quem gosta de saber (eu, por exemplo, adoro!) a história de cada foto.]
![]() |
| A estrela no esgoto - Foto Guina Araújo Ramos, 2024 |
![]() |
| Disco voador na mesa - Foto: Guina Araújo Ramos - Niterói, 2024 |
Pode parecer uma montagem proposital... Os elementos já estavam ali, sim, mas a composição que a foto registra é totalmente casual.
Mesa com tampo de vidro, toalha de crochê e bandeja metálica (um presente vindo do Egito), tudo redondo. Sobre esta base, luminária do tipo “pendente”, composta por peça branca metálica côncava (com duas lâmpadas comuns) e outra peça côncava maior, também branca (aqui, mal iluminada), tudo também redondo. Suspendendo o conjunto, um tubo de plástico fino, por onde passa a fiação elétrica.
Chegando em casa e acesa a luz, vejo a luminária, em vez de suspensa a um metro sobre a mesa, arriada até encostar na bandeja. No que o cabo plástico foi ficando "meloso", digo, escorregadio, o “disco voador” desceu até encostar na mesa.
Achei ótimo fazer a foto, pura arte casual!... Difícil agora é fazer a luminária voltar ao lugar... Por mais que limpe ou esfregue, para tirar a gosma do plástico, o cabo continua escorregadio. Após alguns nós e giros em torno do gancho do teto, só chegou a 40cm de altura e precisa ser alçado um tanto mais...
Série Artes Casuais, # 5