segunda-feira, 22 de agosto de 2022

[50] Urubu, abre as asas sobre nós!

Urubu, abre as asas sobre nós!

O Brasil precisa de você: devore a carniça que putrefaz o país e acolha este povo que resiste!

Apareça acima dos muros, urubu, você que luta pela superação de duras resistências ao simbólico (mas prático) senso de seu valor.

Encare, urubu, a cara feia da dor, você que encarna a identidade desse esgarçado povo que se espalha vendido pelo Brasil imenso.

Voe, urubu, sobre o povo, você que deu críticas voltas sobre o racismo, sobrevoando a multidão que ficou a uivar no estádio em que ainda se encontrava.

Rode estas asas, urubu, você que, assumindo esta forma de toga, parece indicar a suprema justiça do tribunal popular, aquele de que necessita o país.

Fantasie o futuro, urubu, você que saberia, utilizando movimentos mágicos de capa, esvoaçar sobre coisas e contas para produzir as estruturas e obras que o reconstruirão.

Reative nossas vidas, urubu, você que, convivendo de perto com a morte, dela tirando até sustento, poderia nos mostrar jeitos e meios de conseguir, na real, fazer renascer nosso país. 


Firme aí, urubu!... Nós, o povo, estamos e vamos, todos juntos, na sua aba!

[Com a preciosa dica da internacional Lídia Santos, escritora e professora de Literatura]

domingo, 14 de agosto de 2022

[49] O manto que torce

Vocês sabem, né?, superstição é prática em que ninguém acredita até que começa a usar. Ou, em suma, é uma inutilidade do maior valor!

Eu, por exemplo, sempre fui infenso a estas apelações, mas de vez em quando, sabe-se lá porquê, tenho uma recaída. E digo recaída porque já perdi, debaixo do tapete do passar dos anos, o dia em que isso começou, acho que eu era criança...

Mas, vamos aos fatos, que, por envolverem outros jogos (no caso, os de futebol, mas pode ser qualquer outro em que sua cultura estiver envolvida), são um tanto dramáticos, vocês sabem, mas desta vez, oba!, com final feliz...

Então, o Flamengo jogaria contra o Athetico Paranaense (e eu até desconfio que a manutenção deste “h” tenha a ver com o tema...) e, dizia a imprensa (digo, a TV, ou o celular), jogaria com o novo terceiro uniforme, e descreveram e tal... Não me liguei muito, que toda hora as empresas fornecedoras do “manto sagrado” de cada time inventam novos e novos novos uniformes.

Então, na calada da tarde (o jogo era às 16h) me postei na frente da TV com meus trajes mágicos habituais (não vou detalhar, melhor me preservar a intimidade...), que seria uma espécie de “manto para dar sorte”: a camisa vermelha c0m rabiscos em preto, um calção “neutro” (nunca sei se jogam com o branco ou com o preto), sandália vermelha (às vezes uma branca) e a cueca vermelha (ih, falei!..., mas deixa pra lá, quem é supersticioso entende, até porque às vezes usa coisas mais estranhas...).

Pois o novo novo uniforme, além das faixas horizontais com enjoativas ondas (muito bobo!), incluía um calção vermelho, coisa jamais vista!... Bem, considerando que uns anos atrás desencavaram as supostas cores originais do clube, um azul-amarelo que mais lembrava o PSDB, e agora pareceria uma seleção de imigrantes ucranianos, então, aguentemos...

O jogo, um duelo de bons times reservas, ficou amarrado em 0 x 0 no primeiro tempo, apesar dos 11 x 0 para o Fla nos chutes a gol. Foi aí que acendeu o meu alarme de soluções mágicas, e eu me lembrei: tenho um calção vermelho!... Intervalo, fui trocar. O início do segundo tempo me preocupou, mas de repente veio a enxurrada de gols: quando tirei o espanto dos meus olhos, o jogo acabava com Flamengo 5 x 0, na maior alegria!

Está bem, reconheço: nem sempre funciona... Ou eu escolho a roupa errada. Ou os presságios da sorte não estão jogando essa bola toda... Sei lá, ou melhor é que sei que a culpa não é minha, e nem a glória, que bom!...

Mas, quem joga esse jogo de sortilégios à distância (em vez de nas bestas bets das apostas) não perde nunca!... Faz a parte que lhe cabe e torce desgraçadamente para que seu time jogue muita bola (ou tenha muita sorte) e que (às vezes funciona) ganhe tudo quanto é jogo que jogar em qualquer campo: vencer, vencer, vencer!

Deu trabalho fazer uma foto que registrasse o evento, gastei uma dúzia de cliques no celular. Precisou ser uma selfie à altura da cintura, juntando camisa e calção, mas mais difícil era enquadrar a TV e, ainda mais, clicar na hora exata em que algum jogador do Mengão estivesse na tela. Com um grande corte na imagem original, deu nisso. Fotografia é também, que nem futebol, a arte do possível...