sábado, 5 de fevereiro de 2022

[44] O poente monocromático

Na verdade, uma foto casual. Não pelo objeto, o pôr-do-sol (*) sobre o Rio de Janeiro, mas pelo produto.

Ontem, um fim de tarde diferente, uma grande nuvem sobre toda a extensão, que me é dado ver, das montanhas cariocas. Um jogo de cores instigante, o raiado dos tons quentes do poente espremido entre o corpo subexposto da terra e a nuvem escura que pesava sobre toda a paisagem..

De minha parte, um momento agitado, pouca disponibilidade de tempo para fotografar e um repentino mau humor dos automáticos da câmera, que, em geral é muito cordata!

Ela, a máquina, tomou conta do processo... Os controles meio que enlouqueceram e eu não conseguia, para começar, escolher a sensibilidade, que pulava sozinha para 3200 ASA/ISO... Ah, eis que de repente achei que conseguira definir em 400 ASA, e não perdi tempo: bati a foto. 

Poente PB no Rio - Foto Guina Araújo Ramos, 04/02/2022

Não percebi que a câmera havia mudado um outro parâmetro: acionou Efeitos de Imagem e, por conta própria, escolheu Monocromático Contraste Alto!... Fiquei tão chateado que até desisti do pôr-do-sol, mais um entre toda uma vida de poentes, e fui tratar de outras coisas.

Hoje, baixando outras imagens, prestei atenção nesta, que, de passagem, me parecia um borrão: lá estava, em silhueta, a tranqueira da Pedra da Gávea, o Corcovado e seu Cristo estático, as agulhas das antenas do Sumaré e mais o ondulado das montanhas subindo para o Pico da Tijuca. Abaixo dela, o peso da Terra. E acima, a pressão das nuvens em um único bloco, e ainda bem que passageiras.

Gostei. Uma foto que vale mostrar. E guardar.

 

(*) Dizem as regras do atual acordo ortográfico, de 2009, que o correto agora é "pôr do sol", sem hífen. Desculpem os sabichões, mas sou contra!... Sem hífen, tenho a impressão que o sol vai fugir, vai se afastar, deixar de se pôr.

Bem, são problemas que não vou resolver... Mas, posso, ao menos, para não sofrer esta imaginária perda, escolher escrever errado quando e sempre que, para mim, seja o certo.

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

[43] Liberdade, bandeira de todas as cores

Pode ser que mexa num vespeiro, se não for coisa pior, mas não resisto, neste Dia da Bandeira, a umas divagações sobre ela, sempre dada a polêmicas no que representa variados anseios nacionais, exemplificados nesta minha foto.

Liberdade é bandeira - Vila Autódromo, Rio, 2015 - Foto: Guina Araújo Ramos

 
Parto, então, dos fatos sobre a bandeira brasileira contidos nesta matéria da BBC News/Brasil, que fala das origens e da evolução do modelo atual, inspirado na bandeira da Independência.
Diz que há certa “casualidade” (ou causalidade?) na escolha das cores, uma decisão repentina de Pedro I às margens do Ipiranga: o verde seria alusão à Casa de Bragança, o amarelo à Casa de Habsburgo.
Lembra que o Brasil teve, do dia 15 até o decreto de 19 de Novembro de 1889, uma bandeira “americanófila”, réplica da bandeira dos EUA com faixas verdes e amarelas (em vez de vermelhas e brancas), proposta do jurista Ruy Barbosa, e que o próprio marechal Deodoro da Fonseca decidiu manter a geometria da bandeira imperial.
E relembra que a República conservou as cores, mas desenvolveu progressivamente a “alteração” do seu significado: "A explicação do verde das matas e do amarelo do ouro foi construída depois. Foi uma maneira tardia de a República tentar modificar o simbolismo original da bandeira, associado à monarquia" (explica o historiador Paulo Rezzutti).
Ora, se ainda estamos numa República e se as riquezas são o tema da bandeira, então há uma grande ironia neste Brasil em que vivemos: todas estas riquezas, que a bandeira verde-amarela-azul-e-branca supostamente simboliza, estão sendo dilapidadas, ou vendidas a preço vil, ou contrabandeadas descaradamente, ou praticamente entregues de mão beijada aos países e às empresas estrangeiros.
E falam tanto, em arrotos supostamente patrióticos, que a bandeira brasileira jamais deveria ser vermelha... Considerem: se é para continuar vendendo a pátria, se é para seguir o padrão entreguista vigente (que tem sido radicalizado), poderíamos fazer da bandeira um símbolo absolutamente radical deste processo. Talvez, uma paleta de todas as cores, lembrando todas as riquezas exploradas e retiradas do Brasil...
Então, que se comece pelo vermelho (homenageando o pau-brasil, que deu, inclusive, nome ao país) e que se vá até o preto (um registro evidente da mais recente e valiosa riqueza do Brasil entregue ao mundo, o petróleo do pré-sal). E entre estas, se coubessem, todas as cores!
São tantas riquezas (e tantas cores) que talvez seja preciso sintetizar em, digamos, duas, as básicas (e extremas), a vermelha e a preta: do pau-brasil ao pré-sal, o Brasil!...
Buscando ser presciente e mais abrangente, talvez um restinho do que sobrar do verde da Amazônia possa ocupar um cantinho desta bandeira-mais-que-sincera do Brasil...
Outras possibilidades, sob outros motes, sempre há...
Nossa pátria diversidade humana, por exemplo, logo sugere uma bandeira vermelha-branca-preta-amarela, nessa ordem, em razoável cronologia histórica. Só não sei se caberia, que evitaria divergências, uma distribuição proporcional às populações das cores no espaço da bandeira.

Deu bandeira: perdas e fracassos. - Brasil, 2021 - Foto: Guina Araújo Ramos

E o que mais há, nestes tempos questionáveis, são versões críticas, e até criei a minha, sofridamente, sob os ventos dolorosos das notícias... 
Afinal, a angústia que acomete o Brasil tem resultado numa profusão de "bandeiras-manifesto", até porque a nossa, na versão atual, é das poucas bandeiras nacionais com espaço para palavras de ordem, motes ou bordões: é praticamente uma bandeira literária!...
Em suma (embora seja um assunto que não acaba...), se a liberdade é bandeira de todas as cores, então, reconheçamos, o povo deve ter, assumindo, toda a liberdade de escolher as cores (e também a forma) da sua bandeira. 
Ou seja (e isto sim é definitivo), podemos crer: outras bandeiras brasileiras virão...
 
[Texto original de 19/11/2018 no Facebook,atualizado, editado e publicado aqui em 19/11/2021. Atualizado em 29/05/2022.] 
Da série Eventos Insólitos